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É comemorado nesta quinta-feira, 9, a Revolução Constitucionalista de 1932 – feriado no Estado de São Paulo, mas que em 2020 foi antecipado para maio devido a pandemia do novo coronavírus. Para falar mais sobre a data e a participação de Jaboticabal na revolução, o Jornal 101 conversou com o historiador Professor Beduschi. Confira!

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A Revolução Constitucionalista de 1932 foi um dos acontecimentos mais importantes da História de Jaboticabal.

Jaboticabal se fez presente nesse episódio marcante da vida nacional, através da participação voluntária de inúmeros jovens que se dispuseram a combater a tirania, o obscurantismo e o desrespeito à Lei e ao Direito.

Para entender o movimento armado que mobilizou todo o Estado de São Paulo, se faz necessário retroceder no tempo, mais precisamente à década de 1930.

ANTECEDENTES DA REVOLUÇÃO

Desde o Governo de Campos Sales[1], os Estados de São Paulo e de Minas Gerais se alternavam no exercício da Presidência da República. Era a chamada “Política do Café com Leite”.

Pela lógica, até então estabelecida, o sucessor de Washington Luiz Pereira de Souza[2] deveria ser um político mineiro. Entretanto, Washington Luiz decidiu lançar o Presidente do Estado de São Paulo, Júlio Prestes de Albuquerque à sua sucessão. A candidatura de Júlio Prestes contava com o apoio do PRP – Partido Republicano Paulista, bem como do Partido Republicano de outros Estados da Federação.

Getúlio Vargas, que havia sido Ministro da Fazenda do Governo de Washington Luiz, deixou a Presidência do Estado do Rio Grande do Sul para disputar a Presidência da República, em oposição a Júlio Prestes. Getúlio era apoiado pelos partidos que constituíam a Aliança Liberal.

Realizadas as eleições, Júlio Prestes saiu vencedor. De ambos os lados houve denúncias de fraudes envolvendo o pleito.

A crise econômica que se estabelecera no país em virtude da Grande Depressão de 1929 e o assassinato de João Pessoa, candidato a vice-presidente na chapa de Getúlio Vargas, em 26 de julho de 1930, constituíram o estopim do levante que resultou na deposição de Washington Luiz.

Vargas comandou o movimento armado que se denominou “Revolução de 1930”, iniciado no dia 3 de outubro daquele ano. O Presidente Washington Luiz foi deposto no dia 24 de outubro de 1930, pelos Generais Augusto Tasso Fragoso e João de Deus Mena Barreto e pelo Contra-Almirante José Isaías de Noronha, os quais passaram a constituir uma Junta Governativa.

A Junta Governativa designou o General Hastínfilo de Moura para o Governo de São Paulo, alijando do poder o Vice-Presidente do Estado, Dr. Heitor Teixeira Penteado, que vinha exercendo a presidência em razão o afastamento do Presidente Júlio Prestes para concorrer à Presidência da República. Os líderes Militares da Junta Governativa, logo em seguida, passaram o Comando da Nação a Getúlio Vargas, que se tornou chefe do chamado Governo Provisório, estabelecido a partir de então.

No dia 30 de outubro, uma Junta Governativa, sob a Presidência do Jurista Plínio Barreto, assumiu a Governo de São Paulo em substituição ao General Moura, permanecendo no poder até 26 de novembro. É bem verdade que, durante esse período, um Delegado Militar, o Coronel João Alberto Lins de Barros, dividiu com os membros da Junta Governativa as atribuições do governo.

Logo em seguida, Getúlio dissolveu a Junta e nomeou o Coronel João Alberto, autêntico representante do movimento denominado de Tenentismo[3], para o cargo de Interventor Federal no Estado de São Paulo. As autoridades paulistas legalmente constituídas foram destituídas e se processou a ocupação militar do nosso Estado.

João Alberto permaneceu no posto de Interventor por oito meses. Seu substituto foi o jurista Laudo Ferreira de Camargo, que assumiu o cargo de Interventor em 25 de julho de 1931, nele permanecendo até 13 de novembro do mesmo ano, quando foi substituído de forma afrontosa pelo Coronel Manoel Rabelo, causando grande humilhação para o povo de São Paulo.

Dessa humilhação nasceu a “Liga de Defesa Paulista”, que lançou um vigoroso manifesto, protestando contra o golpe que ferira profundamente os brios dos paulistas. A “Liga de Defesa Paulista” fez um apelo a todos os paulistas, os de nascimento e os de adoção, para se unirem visando constituir uma força respeitável, capaz de impor à Ditadura de Vargas as suas justas aspirações.

São Paulo não se curvava aos desmandos do Ditador Getúlio Vargas e fazia exigências, clamando por um dirigente “Civil e Paulista” para comandar o Estado. Visando consolidar tal posição, uma extraordinária manifestação foi realizada no dia 25 de janeiro de 1932, na Praça da Sé.

O apelo da “Liga de Defesa Paulista” encontrou acolhida junto aos dirigentes políticos e, a 17 de fevereiro de 1932, o PRP – Partido Republicano Paulista – e o PD – Partido Democrático se uniram em “Frente Única” para lutar pela reconquista da autonomia paulista e pela constitucionalização do país, contado, ainda, com o apoio de lideranças políticas dos Estados de Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Mato Grosso e Rio de Janeiro.

Habilidoso e sutil, Getúlio Vargas decidiu atender aos clamores do povo bandeirante.

Getúlio nomeou o Dr. Pedro de Toledo[4], para o cargo de Interventor no Estado de São Paulo. A posse ocorreu no dia 7 de março de 1932.

São Paulo continuava a sonhar com uma constituição para o país e, mais uma vez, a sagacidade de Getúlio se fez sentir, com a edição do Decreto Nº 21.402, de 14 de maio de 1932, que fixava data para a eleição dos constituintes que iriam elaborar a nova Constituição do Brasil.

Além da edição do decreto, Getúlio determinou que Osvaldo Aranha, seu Ministro da Fazenda, viesse a São Paulo para acalmar os ânimos dos paulistas. A visita é anunciada ao povo no dia 21 de maio e suscita muita apreensão, pois temia-se que Osvaldo Aranha viesse a São Paulo para dar um fim no chamado “Caso Paulista”, depondo Pedro de Toledo e colocando em seu lugar alguém de confiança do Governo Provisório.

No dia seguinte, 22 de maio, um domingo, a “Frente Única” lança um Boletim no qual afirmava que a presença “do enviado especial do Ditador” tinha o “intuito de arrebatar do povo paulista o sagrado direito de escolher os seus governantes” e que a gente bandeirante não suportaria tamanha afronta e humilhação, repelindo “a indébita e injuriosa intromissão na sua vida política” por parte daqueles que estavam “conduzindo São Paulo e o Brasil à sua ruína total”.

A animosidade tomou conta de todos! Nesse mesmo dia 22 de maio, o povo foi convocado a comparecer a uma grande concentração que se realizaria na Praça do Patriarca. Durante o comício, vários oradores se fizeram ouvir, entre eles o consagrado tribuno Ibrahim Nobre. Os manifestantes se dirigem, depois, ao Palácio dos Campos Elísios, sede do governo paulista, sendo recebidos pelo Interventor Dr. Pedro de Toledo. Ibrahim Nobre, falando em nome dos presentes, afirmou: “Já começa a correr o sangue paulista[5]. Estamos algemados, e algemados dentro de uma senzala. Vossa Excelência, Dr. Pedro de Toledo, está preso conosco. Vossa Excelência deve sair dela e com estes homens vir às ruas reivindicar a nossa liberdade. Vossa Excelência está no fim da vida e deve escolher: um simples epitáfio ou uma estátua“. Pedro de Toledo pede aos manifestantes que aguardem até o dia seguinte. Se não resolver a questão deixará o cargo de Interventor.

 

PRIMEIROS MÁRTIRES

O dia seguinte é 23 de maio. As lideranças do movimento convocam o povo para mais uma manifestação. A partir do meio dia, o Largo de São Francisco já está totalmente tomado. Uma parte dos manifestantes se dirige ao Palácio dos Campos Elísios para cobrar a promessa feita por Pedro de Toledo. Nessa ocasião foi anunciado que começava a ser formado um novo secretariado, todo ele composto por paulistas. A visita de Osvaldo Aranha teria sido um fracasso.

O povo exulta e exige a posse imediata dos novos secretários. Pedro de Toledo anuncia que a posse do novo Secretário da Justiça, Dr. Waldemar Ferreira, irá acontecer às nove horas da noite, no Pátio do Colégio. A multidão se dirige para lá. O novo Secretário é recebido sob aclamação e os manifestantes, em seguida, realizam passeata pelas ruas do centro da cidade. Caminham na direção do prédio onde se instala a “Legião Revolucionária” (organização getulista). Quando passavam pela Praça da República, esquina com a Rua Barão de Itapetininga, ouvem-se rajadas de metralhadora. Quatro jovens foram covardemente assassinados pelos simpatizantes da ditadura: Mário Martins de Almeida, Euclydes Bueno Miragaia, Drausio Marcondes de Souza e Antônio Américo Camargo de Andrade.

A consternação é geral. Da estupefação o povo passa à revolta, exigindo um reparo às perdas sofridas. Os quatro jovens, covardemente assassinados, emprestam as iniciais de seus nomes para a criação do MMDC, organização que passou a comandar a mobilização do povo contra o poder ditatorial. Dias pesarosos se seguiram ao 23 de maio.

 

PONTOS DE HONRA

O objetivo principal do povo paulista era a promulgação de uma nova constituição que viesse restabelecer o Estado de Direito no País, evitando, assim, que a Pátria ficasse submetida aos desígnios despóticos de um ditador. A esse objetivo primordial juntaram-se outros três, também considerados pontos de honra para o povo paulista. Assim é que São Paulo também passou a exigir:

  1. a) a manutenção do General Andrade Neves no Comando da 3.ª Região Militar;
  2. b) a manutenção do Secretariado Estadual, cuja composição havia sido feita sem qualquer consulta prévia ao ditador Getúlio Vargas, e
  3. c) a manutenção do General Bertholdo Klinger no Comando da Circunscrição Militar de Mato Grosso.

Esses pontos também eram defendidos pelos partidos políticos que constituíam a “Frente Única” do Estado do Rio Grande do Sul, tendo à frente Flores da Cunha, Interventor Federal naquele Estado.

Por sugestão do próprio Flores da Cunha ficou acertado que qualquer afronta a um desses pontos de honra significaria a deflagração de uma revolta armada. É bem verdade que o ditador, com certa antecedência, havia tomado eficientes providências no sentido de enfraquecer o poderio militar dos Estados, especialmente ao editar o Decreto Nº 20.348, de 29 de agosto de 1931, que entre outras medidas, proibia as Polícias Estaduais de disporem de Artilharia e de Aviação de Guerra.

Getúlio Vargas tomaria uma atitude cujo desdobramento resultaria em afronta a um dos pontos de honra mencionados. O Ministro da Guerra, General José Fernando Leite de Castro, pede demissão em caráter irrevogável e Getúlio nomeia em seu lugar o General Augusto Inácio do Espírito Santo, um militar da reserva que de há muito se encontrava afastado do pessoal da ativa.

Inconformado com aquela substituição, o General Bertholdo Klinger enviou, no dia 1.º de julho de 1932, um ofício de protesto e em termos ofensivos ao novo Ministro da Guerra, colocando em dúvida a sua capacidade de exercer o cargo, em razão de sua idade avançada.

O ofício ficou retido por alguns dias, em mãos de um oficial que tentava demover Klinger de sua atitude. Não cedendo às ponderações, o expediente chegou às mãos do novo Ministro que, no dia 8 de julho, determinou a reforma administrativa do General Bertholdo Klinger e sua destituição do Comando Militar de Mato Grosso. Foi o quanto bastou para que as lideranças de São Paulo se rebelassem.

 

 

REVOLUÇÃO DEFLAGRADA

No dia seguinte ao da reforma administrativa do General Bertholdo Klinger, isto é, no dia 9 de julho de 1932, um sábado, eclodiu a Revolução Constitucionalista.

Getúlio e seus adeptos tentaram denegrir a imagem do movimento dos paulistas, atribuindo-lhe a pecha de movimento separatista. Era a contra informação a serviço da mentira.

Em realidade, logo no início da Revolução, as autoridades de São Paulo deixaram claro que o objetivo pretendido era o de dotar o país de uma constituição soberana e democrática.

Nota oficial assinada pelo General Isidoro Dias Lopes e pelo Coronel Euclydes Figueiredo, publicada no domingo, dia 10 de julho, enfatiza os propósitos do movimento dos paulistas: “Neste momento assumimos as supremas responsabilidades de comandar as forças revolucionárias, empenhadas na luta pela imediata reconstitucionalização do país”.

Após a manifestação, no mesmo dia 10 de julho, o Coronel Júlio Marcondes Salgado, Comandante Geral da Força Pública do Estado de São Paulo, proclamava os mesmos objetivos: “Na mais vibrante manifestação de civismo, na mais pujante prova de amor ao Brasil e a São Paulo, na mais heróica atitude de abnegação e de renúncia, na madrugada de hoje, o Exército, a Força Pública e o Povo de São Paulo lançaram aos quatro ventos da terra bandeirante o grito de revolta pela Pátria redimida”.

O Secretário Estadual de Justiça, Dr. Waldemar Martins Ferreira, nesse mesmo dia informava que: “Atendendo às aspirações do Povo, Exército e Força Pública, o Dr. Pedro de Toledo é aclamado, neste momento, Governador do Estado de São Paulo”.

Pelas manifestações transcritas, fica evidente que os paulistas jamais pretenderam separar São Paulo do Brasil e que a tentativa de caracterizar o movimento como “separatista” se constituiu em mais um embuste, dentre tantos outros, que Getúlio tentou impingir à Nação.

É interessante lembrar, ainda, que São Paulo é o único Estado da Federação que tem em sua bandeira o mapa do Brasil, além de possuir em seu brasão o dístico: “Pro Brasilia fiant eximia”, ou seja: “Pelo Brasil façam-se grandes coisas”.

A pecha de separatista, que se pretendeu atribuir à Revolução de 32, tinha por objetivo colocar os demais Estados da Nação contra São Paulo.

 

 

SÃO PAULO FICOU SOZINHO

A atitude intempestiva tomada pelo General Bertholdo Klinger, que resultou na sua reforma administrativa e destituição do Comando Militar de Mato Grosso, privou o Estado de São Paulo de contar com os numerosos e equipados batalhões mato-grossenses.

Para neutralizar o prometido apoio de Minas Gerais, a Ditadura determinou a prisão de Arthur Bernardes[6] , ex-presidente da República, que pretendia sublevar os soldados da Força Pública de Minas Gerais em favor do Movimento Constitucionalista. A prisão de Arthur Bernardes deixou Olegário Maciel, Presidente do Estado de Minas Gerais, inteiramente à vontade para agir contra São Paulo.

No Rio Grande do Sul, a mesma tática foi adotada pela Ditadura ao prender Borges de Medeiros. Uma vez encarcerado o grande líder gaúcho, o Interventor Flores da Cunha, que havia prometido apoio a São Paulo, se voltou contra os paulistas.

Aos dirigentes do movimento não restou outra alternativa a não ser contar com o seu povo que se mobilizou em todos os municípios do rincão paulista.

Em Jaboticabal não foi diferente, pois os jovens, em apoteótica mobilização, atenderam ao chamamento cívico de São Paulo, alistando-se voluntariamente.

 

PARTICIPAÇÃO DE JABOTICABAL

No dia 17 de julho, um domingo, o jornal “O COMBATE” estampava a seguinte manchete: “A ARRANCADA CONSTITUCIONALISTA CONTRA A DICTADURA. SÃO PAULO FORTE E COHESO, AVANÇA DESTEMEROSAMENTE”

A primeira página do jornal é totalmente dedicada ao movimento revolucionário. O Redator destaca, logo de início, que “Jaboticabal, em cujo emblema está inscrito que nela perdura o espírito de gente paulista, também se levantou inteira e unida com todas as localidades irmãs deste São Paulo radioso e invencível”, afirmando, ainda, que Jaboticabal “saberá estar na vanguarda do movimento paulista, hoje já transformado numa desabalada avalanche cujo sustamento é impossível”.

O jornal também registra que, na quinta-feira, dia 14 de julho, portanto, cinco dias após a deflagração do movimento, Jaboticabal recebeu a visita de integrantes da Comissão especialmente designada pelo Comando da Revolução, para percorrer o Interior do Estado e estimular a participação de todos os paulistas nessa cruzada cívica. O objetivo de tal Comissão era a criação de um Serviço de Alistamento de Voluntários em cada cidade.

Recebida por inúmeras pessoas, a Comissão se dirigiu até o Hotel Municipal, onde a aguardava grande multidão.

Da sacada do Hotel Municipal, o Dr. Waldemar da Rocha Barros apresentou ao povo os membros da Comissão. Um dos seus integrantes, o Dr. José Alves da Motta, antigo Promotor Público da Comarca de Jaboticabal, saudou o povo esclarecendo os objetivos da caravana cívica e enaltecendo o movimento paulista contra a ditadura.

O povo foi convidado a participar de um comício que se realizou, a partir das 19:30 horas, no coreto do Jardim Público. Vários oradores fizeram uso da palavra: Prof. Romário Gouveia, Dr. José Ramalho Filho (advogado em Taquaritinga), Dr. Waldemar da Rocha Barros, Dr. César Salgado, Dr. José Alves Motta que empolgaram a formidável massa humana que cercava o coreto. A mulher jaboticabalense também se fez ouvir através das palavras da Acadêmica de Direito, Srta. Palmyra Gouveia.

Finalizando o comício, o Chefe da Caravana Cívica leu os nomes das pessoas que a partir daquele momento passavam a constituir a “Comissão Coordenadora do Movimento Constitucionalista”, presidida pelo Dr. Waldemiro Vieira Marcondes (Prefeito Municipal), e que tinha como membros o Dr. Alberto de Oliveira Lima (Juiz de Direito da Comarca), o Dr. Aristeu de Castro (Delegado de Polícia), o Dr. Elias da Rocha Barros (Presidente do Partido Democrático), o Major João Baptista Novaes (Presidente do Partido Republicano Paulista), os advogados: Dr. José Rodrigues Duarte e Dr. Milton Mattos Braga e o jornalista Mário Guarita Cartaxo.

Terminado o comício o povo participou de uma passeata cívica pelas ruas da cidade. Os jornais da cidade eram ponto de referência e os participantes da passeata fizeram uma parada em frente à redação de “O DEMOCRATA”, oportunidade em que a caravana foi saudada pelo Dr. Elias da Rocha Barros. Em seguida, nova parada, dessa vez defronte à redação de “O COMBATE”, cabendo ao Dr. José Murta Ribeiro, Promotor Público Interino e Estagiário junto ao Ministério Público, saudar a caravana.

Defronte ao Ginásio “São Luiz”, a caravana se deteve novamente e o Dr. José Alves da Motta saudou o Diretor do estabelecimento de Ensino, Prof. Aurélio Arrobas Martins. Respondeu pelo Ginásio um aluno das classes mais adiantadas, proferindo eloquente oração. O Prof. Arrobas Martins não conseguiu conter o ímpeto e proferiu magnífico discurso que encerrou com chave de ouro a esplêndida manifestação de civismo havida naquela quinta-feira, 14 de julho.

Três dias depois do início do levante, a Comissão Municipal recebeu as primeiras adesões de jaboticabalenses. Foram alistados 393 voluntários, no período de 12 de julho até 30 de agosto, incluídos nesse total os integrantes do “Batalhão Tonanni”.

 

DONATIVOS PARA OS SOLDADOS

Nota da Comissão de Abastecimento, publicada no jornal “O COMBATE”, edição de 24 de julho de 1932, esclarece que a coleta de auxílios em gêneros alimentícios e donativos em prol da Causa Constitucionalista, estava sendo feita pelas seguintes Comissões:

Comissão Brasileira

Hilário Tavares Pinheiro

Antônio de Paula Eduardo

Fausto Fagundes Lavras

Raphael Linardi

Pedro Smith

Gino Beltrame

Comissão Portuguesa

João Evangelista da Silva

João Neves Filho

Humberto Salvador de Campos

Carlos Alberto Martins

João Manoel Ribeiro

Comissão Italiana

Cav. Carlos Tonanni

Salvador Bruno

Luiz Niero

João Tralli

Victório Baldo

Comissão Espanhola

Avelino Geraldes Martins

Irmãos Fráguas & Iglésias

Perfecto Cortizo Moreira

Laureano Fernandes Blanco

Comissão Síria

Theophilo Mabardi

Nazário Kenan

Habib José Abimusi

Felício Buzaid

Felippe Attala

Um apelo foi dirigido aos demais estrangeiros residentes na cidade, para que integrassem a Comissão composta pelos Srs. João Petroucic e Gustavo Starck. A nota vinha assinada pelo Juiz de Direito, Dr. Alberto de Oliveira Lima e pelo Prefeito Municipal, Dr. Waldemiro Vieira Marcondes.

 

A MULHER JABOTICABALENSE NA REVOLUÇÃO

As mulheres paulistas e, em particular, as mulheres jaboticabalenses também tiveram efetiva participação na Epopeia de 32, dando exemplo de civismo e de abnegação, amparando e incentivando os jovens que partiam para o campo de batalha.

Ao longo dos meses de batalha, a presença da mulher jaboticabalense foi uma constante, quer participando de campanhas de arrecadação de fundos e de alimentos, quer confeccionando uniformes e agasalhos para os combatentes. A “Comissão de Senhoras Jaboticabalenses Pró-Movimento Constitucionalista” contou com a preciosa participação das seguintes damas: Marion Batista Ferreira, Matilde Marcondes, Clarice Nogueira, Guiomar Sodré Dória, Judith Schmidt, Lygia de Oliveira Lima, Júlia Tavares Pinheiro, Palmyra Gouveia, Santinha Carvalho e Leocádia Prigione.

Preparando-se para uma eventual necessidade de atuar nas frentes de batalha, 22 jaboticabalenses frequentaram um Curso Prático de Enfermagem, que teve início no dia 18 de julho de 1932, nas dependências da Casa de Saúde de Jaboticabal e que foi ministrado pelo Dr. Alcides Lafranchi e pelo Dr. Hilário dos Santos.

Participaram desse curso as seguintes jaboticabalenses: Lígia de Oliveira Lins, Atília Starck, Alba de Oliveira, Julieta Marques de Souza, Alda Mattos Braga, Enídia Paladino, Betty Almeida Bereta, Jenny Martins Pinheiro, Maria Aparecida Albuquerque, Annita Castro Neves, Leocádia Prigione, Alice de Oliveira, Benedita de Oliveira, Cornélia Monti, Yolanda Maccheroni, Palmyra Gouveia, Maria Alice Oliveira, Elza Bastos, Santa Carvalho, Maria Natalina Leite, Antonieta Kanebley, Maria da Glória Mendes.

 

CARTAS DOS COMBATENTES

Numa época em que não existiam emissoras de televisão e em que as emissoras de rádio davam seus primeiros passos para se consolidar (a PRG-4 – Rádio Clube de Jaboticabal entrou em operação somente em 1934) é de se supor a importância da imprensa para toda a comunidade. Os jornais, entre eles “O COMBATE” e “O DEMOCRATA”, se tornaram os veículos por meio dos quais os combatentes se comunicavam com seus parentes, seus amigos e a população em geral.

Escrever cartas era uma prática usual nos idos de 1930, além do que era o meio de comunicação mais eficiente na situação em que se encontravam os combatentes.

 

MORTE NA PRAÇA

Aloísio de Almeida, em sua  obra: “Acervo Histórico de Jaboticabal” – Volume II, relata que no dia 3 de agosto de 1932, uma quinta-feira, um grupo de fazendeiros, após ter embarcado algumas cabeças de gado, destinadas ao consumo dos combatentes, tomou o rumo do Bar do Guerreiro (João Garreta) e, posteriormente, se dirigiu à Praça da República (atual Praça Dr. Joaquim Batista Ferreira) para, através de uma fotografia, documentar a atitude patriótica  tomada em favor da Revolução Constitucionalista.

Ao posarem para a fotografia foram surpreendidos por soldados de um Destacamento Policial que se encontrava na cidade por determinação do Governo Provisório de Getúlio Vargas.

Os soldados passaram a atirar contra o grupo de fazendeiros, entre os quais se encontravam: Vitório Rampazzo, Benedito Nagib e Abílio Lopes.

O jovem Vitório Rampazzo foi atingido pelos disparos, vindo a falecer dois dias depois, em razão da gravidade dos ferimentos. O soldado do Destacamento de nome Antônio Marques também perdeu a vida no confronto.

A cidade ficou agitada com esses acontecimentos e seus habitantes deles se lembrariam por muitos e muitos anos.

 

MANIFESTO DE SANTOS DUMONT

Em 13 de julho as forças leais à Ditadura iniciaram os bombardeios a várias cidades, atingindo alvos civis e levando pânico à população.

Santos Dumont, por se encontrar doente, descansava no Guarujá. Tomando conhecimento dos fatos e deplorando o uso de seu invento como máquina de guerra, Santos Dumont dirigiu um manifesto à Nação:

São Paulo, 14 de julho de 1932.

Meus Patrícios

Solicitado pelos meus conterrâneos mineiros residentes neste Estado para subscrever uma mensagem que reivindica a Ordem Constitucional do Paiz, não me é dado, por motivo de moléstia, sahir do refúgio a que forçadamente me recolhi, mas posso ainda por estas palavras escriptas affirmar-lhes não só o meu inteiro applauso, como também o apello de quem, tendo sempre visado a glória de sua Pátria dentro do progresso harmônico da humanidade, julga poder dirigir-se em geral a todos os seus patrícios, como um crente sincero de que os problemas da ordem política e econômica que ora se debatem, somente dentro da Lei Magna poderão ser resolvidos, de forma a conduzir a nossa Pátria à superior finalidade dos seus altos destinos.

Viva o Brasil Unido!

Santos Dumont  (Mantida a ortografia original)

Profundamente acabrunhado e abalado em seu controle emocional, Santos Dumont deu fim à vida, enforcando-se no dia 23 de julho.

 

COMEÇO DO FIM

As notícias dos jornais que circulavam em São Paulo difundiam a imagem de um movimento vitorioso, de uma revolução que progredia.

Na realidade a situação era bem diversa. A Força Pública que aderira à Revolução, tinha muitos elementos favoráveis a Vargas.

Também entre os militares não havia perfeita unanimidade. Nos grupos dirigentes havia hesitações. Cedo se verificava que os paulistas enfrentavam sérios reveses.

São Paulo encontrava-se sozinho. O prometido apoio dos aliados não tinha correspondido às expectativas dos paulistas.

Isolado, São Paulo começava a ceder. Começavam as defecções. A 29 de setembro o General Klinger pede a suspensão das hostilidades. Pouco depois, Getúlio estabelece um acordo com a Força Pública de São Paulo.

O entusiasmo dos primeiros dias arrefece.

Uns poucos querem, ainda, resistir e não aceitam o armistício humilhante oferecido pelo Ditador. É um gesto de desespero pela frustração de não poder dar ao Brasil a tão sonhada constituição.

Nos campos de batalha ficaram muitos mortos. Entre eles os jaboticabalenses: Domingos (Mimi) Alemagna, Norival Lacerda, Batista Tibério de Almeida, Nelson Spielmann, Raul Maçoni e Ari Cajado de Oliveira.

 

FIM DO SONHO

O calendário marcava o dia 2 de outubro de 1932. Era o fim do sonho do povo paulista que queria ver sua Pátria liberta da tirania, da opressão e do obscurantismo.

Exilados em Buenos Aires, no dia 15 de outubro de 1932, os políticos rio-grandenses: Raul Pilla, João Neves, Baptista Luzardo e Lindolfo Collor dirigem um manifesto “Ao Rio Grande do Sul, a São Paulo e à Nação”, do qual se extrai o seguinte trecho:

“São Paulo salvou os brios do Brasil. Um povo que possui as reservas de energias morais como as de São Paulo, que surpreendeu o mundo não pode temer pelo futuro. Ninguém subjuga um povo que tenha consciência de seu valor e, sobretudo, dos seus direitos. Choramos, como rio-grandenses, lágrimas de sangue, pela fatalidade que fez São Paulo vítima, duas vezes, de homens do Rio Grande do Sul: vítima, primeiro, durante a ocupação militar da Ditadura, e vítima, depois, pelo abandono em que o Sr. Flores da Cunha deixou os compromissos de seus partidos”.

Na memória dos homens e mulheres que participaram da Revolução de 1932 ficou a história que fala do heroísmo de um povo “que não quis ser escravo”, como asseverava Ibrahim Nobre em artigo publicado no dia 3 de outubro de 1932.

A inferioridade das tropas bandeirantes frente ao poderio das tropas federais obrigou os paulistas a deporem as armas em 2 de outubro de 1932.

Em artigo publicado no jornal “O Estado de São Paulo”, no dia 09 de julho de 2004, o jornalista João Mellão Neto afirmou: O povo de São Paulo perdera a batalha, mas não a guerra. A insurreição paulista era em prol da reconstitucionalização do Brasil. Getúlio Vargas, mesmo vitorioso, prudentemente tratou de convocar uma assembleia nacional e, já em 1934, promulgou uma nova constituição para o país.

 

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

ALMANAQUE ABRIL 1990. São Paulo: Editora Abril, 1990. 866 p.

ALMANAQUE ABRIL 2004. São Paulo: Editora Abril, 2004. 794 p.

ALMEIDA, Aloísio. “Acervo Histórico de Jaboticabal” – Volume II. s/d.

ANDRADE, Dorival Martins & CAMPOS, Ayres de. Jaboticabal na Revolução Paulista. Jaboticabal: Prefeitura Municipal de Jaboticabal, 1982. 70 p.

BANDECCHI, Brasil. História do Brasil. São Paulo: Lisa – Livros Irradiantes S. A., 4ª Edição. 311 p.

BEDUSCHI, Luiz Carlos. História da Santa Casa de Misericórdia de Taquaritinga. Taquaritinga: TAG – Taquaritinga Artes Gráficas e Editora, 2008. 528 p.

CAPALBO, Clóvis Roberto. A história de Jaboticabal, 1828 – 1978. Jaboticabal: Gráfica Santa Terezinha, 1994. 534 p.

COLEÇÃO do jornal “O Combate”. Jaboticabal.

COLEÇÃO do jornal “O Democrata”. Jaboticabal.

HELP! HISTÓRIA DO BRASIL. São Paulo: Clik Editora/O Estado de São Paulo, 1997. 323 p.

LOBO, Haddock. História Moderna e Contemporânea e História do Brasil. São Paulo: Edições Melhoramentos, 1960. 329 p.

REZENDE, Antonio Paulo. Uma trama revolucionária? Do Tenentismo à Revolução de 30. São Paulo: Atual Editora Ltda., 1990. 59 p.

SILVA, Hélio. 1932 – A Guerra Paulista. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira S. A., 1967. 398 p.

 

[1] Manoel Ferraz de Campos Sales nasceu em Campinas-SP, a 13 de fevereiro de 1841, e faleceu em Santos-SP, em 28 de junho de 1913. Bacharel em Direito, elegeu-se Deputado Provincial em 1867 e representou o Partido Republicano na Câmara Imperial a partir de 1885. Após a Proclamação da República, foi Ministro da Justiça do Governo Provisório e Presidente do Estado de São Paulo. Governou o país de 15 de novembro de 1898 a 15 de novembro de 1902. Após o término de seu mandato, voltou à política em 1909, como Senador por São Paulo. (N.A.).

[2] Washington Luiz Pereira de Souza nasceu em Macaé-RJ, a 26 de outubro de 1869, e faleceu em São Paulo, a 4 de agosto de 1957. Bacharel em Direito, foi Promotor Público no Estado de São Paulo, tendo iniciado sua vida política como Vereador na cidade de Batatais-SP. Em 1898, foi Intendente (prefeito) desse município, sendo eleito, depois, Deputado Estadual para o triênio 1904/1906. Foi Secretário de Justiça e Segurança Pública de São Paulo, Prefeito da Capital, Presidente do Estado e Senador antes de chegar à Presidência da República a 15 de novembro de 1926. Com a “Revolução de 1930”, foi deposto e exilado, só retornando ao Brasil em 1947. (N.A.).

 

[3] Tenentismo – movimento de insurreição caracterizado pelas chamadas “Revoltas Tenentistas”, que ocorreram no período de 1922 a 1930 e que procuravam expressar a insatisfação de setores militares com os governos da denominada “República Velha”. (N.A.).

 

[4] Pedro de Toledo nasceu em São Paulo, em 1857, contava 75 anos de idade quando foi nomeado interventor. Foi diplomata e político, além de propagandista da República. Formado pela Faculdade de Direito de São Paulo, em 1884, foi Deputado Estadual, Ministro da Agricultura, Ministro Plenipotenciário na Itália, na Espanha e na Argentina, sendo promovido a Embaixador, em razão dos serviços prestados. Deposto a 02 de outubro de 1932, foi exilado para Portugal, só voltando ao Brasil em 1933, já com a saúde bastante abalada, vindo a falecer em 1935, aos 78 anos de idade. (N.A.).

[5] A alusão de que já começava a correr o sangue paulista, era devida aos ferimentos sofridos pelo poeta Lima Netto, naquele 22 de maio de 1932, vítima das forças agressoras da Ditadura. (N.A.).

[6] Arthur da Silva Bernardes nasceu em Viçosa-MG, a 8 de agosto de 1875. Advogado, iniciou sua vida política como Vereador em sua cidade, elegendo-se, depois, Deputado Estadual, Deputado Federal e ocupando a Secretaria de Finanças e a Presidência de seu Estado. Eleito Presidente da República, assumiu o mandato em 1922 e governou o país por quatro anos, praticamente sob estado de sítio, com forte censura à imprensa e outros atos de força. Terminado seu mandato elegeu-se Senador em 1929 e, em 1932, foi obrigado a se exilar, devido à tentativa de organizar em Minas Gerais um movimento de apoio à Revolução Paulista. De volta ao Brasil, em 1935, foi Deputado Federal até 1937, quando o Parlamento foi fechado. Foi eleito Deputado Constituinte em 1946 e, em 1954, foi novamente eleito Deputado Federal. Faleceu no Rio de Janeiro, em 23 de março de 1955, aos 80 anos de idade. (N.A.).