“Os arranjos de Cesar Mariano para 20 Anos Blue se adaptam a Elis como um vestido esvoaçante”. A frase escrita por uma usuária da Amazon japonesa fala sobre a faixa que abre o álbum que Elis Regina lançou em 1972, o primeiro com arranjos de Cesar Camargo Mariano, e que nesta quarta-feira, 17, dia em que a cantora completaria 76 anos, chega ao mercado com nova mixagem e masterização em CD, vinil e plataformas digitais.

A cantora Elis Regina em show em São Paulo em 1973 © Osvaldo Luiz/Estadão A cantora Elis Regina em show em São Paulo em 1973

Produzido no passado por Roberto Menescal, o álbum Elis – ou “o disco da cadeira”, como ficou conhecido por muitos em função da foto que estampa a capa – ganha nova edição, dirigida pelo filho mais velho da cantora, João Marcello Bôscoli. Os trabalhos técnicos ficaram a cargo do engenheiro de som Luis Paulo Serafim e a masterização por Carlos Freitas.

João sabe que, em um projeto como esse – e ele já havia feito o mesmo processo com outros três discos da mãe (leia mais abaixo) –, é preciso ter muito cuidado para não apertar ou esgarçar a tal costura a que se refere a ouvinte japonesa. Sobretudo quando se trata de uma obra-prima como no caso de Elis.

Além do repertório, que inclui músicas como Águas de Março (Tom Jobim), Atrás da Porta (Francis Hime/Chico Buarque), Nada Será Como Antes e Cais (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos), Bala Com Bala (João Bosco/Aldir Blanc), Casa no Campo (Zé Rodrix/Tavito), Mucuripe (Raimundo Fagner/Antonio Carlos Belchior), o disco juntou, pela primeira vez, o que ficou conhecido como o quarteto fantástico da cantora: Cesar Camargo Mariano (piano), Luizão Maia (contrabaixo), Hélio Delmiro (guitarra) e Paulo Braga (bateria). O grupo a acompanharia em mais dois álbuns, inclusive, no histórico Elis & Tom, de 1974, e em apresentações pelo Brasil e no exterior.

“Me encanta saber que agora o som está muito próximo do que foi ouvido dentro da técnica por Elis e todos os outros envolvidos na gravação. Se música é, entre outras definições, uma tradução sonora dos sentimentos humanos, agora, sem as limitações do vinil e das primeiras digitalizações feitas para CD, estamos mais perto do que ela quis imprimir na sua obra. A Elis sempre reclamava do que ela ouvia no estúdio ser distante do que ela ouvia em casa”, diz João.

A nova mixagem foi feita respeitando a original – o disco foi gravado em apenas quatro canais –, com ganhos de texturas, camadas e voz. Era preciso não quebrar a mítica harmonia criada pelo quarteto e os espaços abertos pelos arranjos de Mariano para que a voz de Elis se aconchegasse. A masterização ajustou o áudio para ser distribuído nos diferentes formatos: no vinil 180g, no CD e no digital.

Mas qual era o som que saía dos instrumentos desses músicos – incluindo Elis, que sempre pensou como um deles? Em seu livro de memórias, Solo, em 2011, Mariano diz não saber explicar com palavras. Diz que não havia virtuosismo, mas humildade. “Tocávamos ouvindo uns aos outros, nos complementando em função de uma sonoridade homogênea”, escreveu.

“Eles criaram uma sonoridade única para Elis. A bateria extremamente minimalista tem todo suingue necessário para uma cantora como ela e, ao mesmo tempo, não tem nenhuma frequência que brigue com a voz. O Cesar Mariano, mundialmente famoso pelo uso de sua mão esquerda na montagem dos acordes, cria uma sinfonia de contrapontos. Um momento mágico. Tem bossa, baião, samba. São caminhos que Tom Jobim, Djavan e João Bosco, por exemplo, adotaram em seus trabalhos”, diz João.

Um caso curioso envolve o piano elétrico que Mariano usou em Casa no Campo. Anos antes, quando tocava com Wilson Simonal, Mariano comprou um piano elétrico achando que se tratava de um Fender Rhodes. Mas, na verdade, havia adquirido um RMI, que não tem limite de vozes como outros sintetizadores, o que permite uma armação de acordes com mais possibilidades. Depois de um bom tempo guardado, em busca de novas paletas sonoras e timbres para Elis, resolveu tirá-lo da caixa.

“O piano elétrico tinha uma maciez e uma semelhança rítmica com a guitarra do Hélio Delmiro e o RMI preenchia outro espectro sonoro. Tornou-se uma marca registrada de César e Elis”, afirma João.

Risadas e improviso de Elis

A nova mixagem de Elis traz, em algumas faixas, flagrantes do que aconteceu no estúdio. No início de Bala Com Bala, por exemplo, há uma risada de Elis. Antes de cantar outro samba, o Me Deixa Em Paz (Ivan Lins/Ronaldo Monteiro de Souza), ela solta um “vacilou”.

A cantora Elis Regina em 1973 © Acervo Estadão A cantora Elis Regina em 1973

Águas de Março ganha um tempo de duração maior e mostra o que rolou depois do fade out – quando o volume de som vai diminuindo gradativamente indicando o final da faixa – da versão original: um delicioso improviso de Elis e seus músicos em cima da melodia criada por Jobim. Diferentemente do que aconteceu com outros relançamentos de Elis comandados por João, nenhuma faixa-bônus foi acrescentada ao disco.

João Marcello não sabe dizer qual disco da mãe é o próximo candidato a receber tratamento parecido. Elis está pronto desde 2014. Além de todo o processo burocrático e de liberação de direitos autorais, o produtor esperou o que ele considera o momento certo para o lançamento, quando nenhum outro projeto envolvendo o nome da cantora ocorre, diferentemente de anos anteriores, em que ela foi tema de musical, filme e biografia.

“A obra de Elis é finita, por isso esse planejamento. Mas, sim, é meu desejo que isso aconteça”, diz João, que já projeta algo com a tecnologia Dolby Atmos, usada recentemente no Box Set Deluxe Edition que comemorou os 80 anos de John Lennon.

Outros álbuns

Elis & Tom (1974)

Clássico da música mundial, o disco que uniu Tom Jobim com a cantora foi gravado no estúdio MGM, em Los Angeles. Com direção de produção de Aloysio de Oliveira, arranjos de Jobim e Cesar Camargo Mariano e regência de orquestra de Bill Hitchcock, teve nova mixagem lançada em 2004, com duas faixas bônus: uma versão alternativa de Fotografia e a canção Bonita, que, ficou de fora da edição original do álbum.

Falso Brilhante (1976)

O disco que trouxe a famosa gravação de Elis para Como Nossos Pais, de Belchior, é o registro de parte do repertório do show homônimo que ela apresentou apenas em São Paulo entre os anos de 1975 e 1977. No relançamento, em 2006, foram adicionadas falas e brincadeiras de Elis com os músicos.

Elis (1980)

Também em 2006, o derradeiro álbum de estúdio de Elis ganhou caprichoso relançamento em um box que ainda trazia sua última entrevista para a televisão, concedida ao programa Jogo da Verdade, em janeiro de 1982. Como faixas bônus, Elis cantando à capela as músicas O Trem Azul Se Eu Quiser Falar Com Deus, além dos instrumentais de Vento de Maio e Calcanhar de Aquiles.

Fonte: msn.com